(Helen Zanchin)
ANÁLISE SEMÂNTICA DO CANTO IV
DE OS LUSÍADAS
O Renascimento foi uma corrente de pensamento que vigorou a Europa
durante os séculos XIV a XVI e tinha como característica a retomada dos valores
greco-romanos na vida cultural, artística e científica da sociedade. Com o
Renascimento, houve uma ruptura no pensamento que dominou a Idade Média,
onde se concebia que Deus era o centro do universo – Teocentrismo.
O Renascimento apresentou uma nova ideologia de vida, que pontuava
que o pensamento humano e a capacidade de questionar o mundo à sua volta
deveria ser privilegiado, pois através da sua capacidade de rever o mundo, o homem
encontrava novas explicações para os fenômenos da vida e da natureza,
distanciando do obscurantismo e da crença que tudo ocorria apenas pelos desígnios
divinos. À essa nova forma de entender o mundo deu-se o nome de
Antropocentrismo, onde o homem era o centro do universo.
Em relação às artes e literatura, surge o estilo denominado Classicismo,
que valorizava na construção de suas obras o uso da perfeição estética, a pureza
das formas, a retomada da mitologia pagã e a busca do ideal de beleza encontrado
nos modelos dos autores da Antiguidade Clássica2.
Portugal também vivenciou com intensidade esse processo de mudança
na forma do homem compreender o mundo. Para Massaud Moisés, o Renascimento
em Portugal se dá em meio à euforia das descobertas marítimas (Moisés, 1987), o
que ajuda a divulgar os princípios humanistas em toda a Europa e no Novo Mundo.
Dentre todos os escritores portugueses desse período, o que mais se
destacou foi Luís Vaz de Camões. Considera-se que Camões foi, ao lado de Tasso
e de Milton, um dos maiores cultores do gênero épico do Renascimento (Moisés,
1993).
Pouco se sabe sobre sua vida, mas tem-se que supostamente nasceu
em Lisboa, em uma família de fidalgos. Quando criança, supõe–se ter disso
educado nos moldes clássicos, onde aprende o latim, literatura e a história antigas e
1 ZANCHIN, Helen Vanessa Oliveira Ritt. Acadêmica 4º Semestre Letras Unemat Campus Tangará
da Serra.
2VILARINHO, Sabrina. Brasil Escola: Classicismo. Disponível em:
<http://www.brasilescola.com/literatura/classicismo.htm>. Acesso em: 27 out. 2011.
modernas. Frequentou a corte portuguesa, teve vários amores e levou uma vida de
boemia. Alista-se como soldado e exila-se em Ceuta, na África, onde perde um olho
em uma batalha. Ao retornar para Portugal, em uma procissão fere Gonçalo Borges,
servo do Paço, e por tal razão é preso.
Algum tempo depois obtém o perdão e parte para o Oriente, onde vive por
vários anos e acredita-se que compôs parte de Os Lusíadas. Foi preso por diversas
vezes e, em 1567, está vivendo em condições de miserabilidade em Moçambique,
quando é resgatado por Diogo do Couto, que providencia seu retorno a Portugal. Em
1572 publica Os Lusíadas, pelo qual recebe uma pensão de 15.000 mil réis anuais.
Mesmo com o êxito da obra, morre na miséria em 1580, sozinho e abandonado.
OS LUSÍADAS
“Os Lusíadas” é a obra prima de Luíz Vaz de Camões. Trata-se de uma
poesia épica publicada em 1572 e foi considerada o “Poema da Raça” e a “Bíblia da
Nacionalidade”. Massaud Moisés assim descreve a significação desta poesia para a
literatura e para o povo português:
“(...) a epopéia teve o condão dúplice de constituir o feliz retrato da
visão do mundo e dos homens própria dos quinhentistas
portugueses, e a sincera e comovida reportagem do momento exato
em que Portugal atingia o ápice de sua evolução histórica.”
O poema é composto de dez cantos, 1102 estrofes ou estâncias, tendo no
total 8.816 versos. As estrofes são oitavas decassílabas, com esquema rímico fixo
AB AB AB CC – a chamada oitava rima camoniana. Divide-se em três partes: 1ª –
Introdução; 2ª Narração e 3ª Epílogo, e tem como núcleo narrativo a viagem
realizada por Vasco da Gama para as Índias em 1497.
CANTO IV
O canto IV segue toda a estética do poema. Seu tema é a continuidade
da narrativa por Vasco da Gama da História de Portugal. O narrador nos conta agora
a história da 2ª Dinastia, desde a revolução de 1385 até ao momento do reinado de D. Manuel, em que a armada de Vasco da Gama parte para a Índia.
Ao término da narrativa da revolução, onde se destaca a figura de Nuno
Álvares Pereira e sua atuação na Batalha de Aljubarrota, citam-se os
acontecimentos dos reinados de D. João I a D. João II. Posteriormente, narram-se
os preparativos da viagem à Índia, desejo que D. João II não conseguiu concretizar
e que acabou por ser intentado por D. Manuel, a quem os rios Indo e Ganges
apareceram em sonhos, profetizando futuras glórias no Oriente.
O Canto IV termina com a partida da armada, cujos navegantes são
surpreendidos na despedida pelas palavras pessimistas e proféticas de um velho
que estava na praia do Belém, entre a multidão. É o episódio do Velho do Restelo.
Para melhor compreensão, podemos dividir as estrofes por assunto, da
seguinte maneira:
1. Crise de 1383-85 (estrofes 1-12)
2. Discurso de Nuno Álvares (estrofes13-19)
3. Reação ao discurso (estrofes 20-27)
4. Batalha de Aljubarrota (estrofes 28-47)
5. Conquista de Ceuta (estrofes 48-50)
6. D. Duarte, D. Afonso V e D. João II (estrofes 51-65)
7. D. Manuel I (estrofes 66-74)
8. Preparo da expedição e despedida dos nautas (estrofes 75-93)
9. Discurso do Velho do Restelo (estrofes 94-104)
A BATALHA DE ALJUBARROTA
(estrofes 28 à 52)
Este trecho, apesar de não ser o mais conhecido do canto IV, destaca-se
por sua descrição vívida e emocionante das cenas de uma batalha. Tal batalha
iniciou-se no dia 04 de agosto de 1385 e deu-se entre portugueses e castelhanos,
que disputavam a sucessão ao trono português. A batalha de Aljubarrota foi um
momento alto e importante na luta com Castela, pois desmoralizou o inimigo e
aqueles que o apoiavam, praticamente assegurando a continuidade da
independência nacional. Dom Manoel sonhou com os rios Ganges e Indo profetizando glórias no oriente.
Assim, nas estrofes 28 e 29 se dá o início da batalha, sinalizada pelas
trombetas castelhanas; a estrofe 30 fala sobre o início da batalha, destacando a
presença de D. Nuno, que foi o grande herói desta batalha. Dom Nuno Álvares
Pereira foi um grande apoiante de D. João Mestre de Avis, que decidiu não esperar
em Lisboa pelos castelhanos e decidiu encontrar-se com eles a caminho de Leiria.
Na estrofe 31 há a descrição das movimentações e ruídos do próprio
combate como tiros, lanças quebrando, corpos caindo ao chão; nas estrofes 32 e 33
se narra a traição dos irmãos de Nuno que combateram pelo exercito de Castelo,
onde se faz uma referência a outros traidores da história antiga.
Da estrofe 34 até a estrofe 42, ocorre mais uma descrição da batalha,
dando destaque aos feitos de D. Nuno Álvares Pereira, que organizou um pequeno
exército e combateu os castelhanos com besteiros e arqueiros a pé, que formavam
filas para derrubar os inimigos.
Da estrofe 43 até à 52, há a narrativa da conclusão da batalha, com a
vitória dos portugueses, graças à tática usada por Dom Nuno, que ficou conhecida
como a "tática do quadrado". Apesar de a batalha ter sido sangrenta, as maiores
perdas foram do exército castelhano, que foi cercado de surpresa pelas tropas
portuguesas e quedou derrotado.
O EPISÓDIO DO VELHO DO RESTELO
O Episódio do Velho do Restelo é o trecho mais conhecido do Canto IV
de Os Lusíadas e também um dos mais importantes de todo o poema, posto que
marca um contraponto à temática de heroísmo e bravura do povo português,
representada no poema.
O discurso do velho à beira da praia, que está contido nas estrofes 94 à
104, é a voz que Camões dá a todos aqueles que discordavam das investidas
marítimas de Portugal e entendiam que a nação deveria preservar seu modo de vida
feudal e iminentemente agrícola.
Tal pensamento, caracterizado como conservador e pessimista, previa que a expansão marítima não seria proveitosa para Portugal, mas traria apenas
consequências nefastas, eis que estava sendo motivada pela ambição e pela cobiça
das riquezas do Oriente.
Com tal empreendimento, o velho alertava que na busca por novas terras,
novos inimigos seriam encontrados, ao mesmo tempo em que o país ficava
desprotegido frente aos conflitos que já existiam com os árabes.
Ao mesmo tempo, o velho alerta que famílias serão destruídas porque os
marinheiros se deixam enganar por falsas promessas de glória e riqueza, deixando
para trás mães, esposas e filhas, que se quedam a chorar na praia no momento da
partida.
Portanto, podemos afirmar que o episódio do Velho do Restelo é o
anticlímax da epopeia camoniana, pois é o único momento da narrativa em que os
ideais expansionistas e de conquista de novas terras é rechaçado dentro do poema.
Sobre este episódio, a análise efetuada por Joana Pereira3 aponta que
sua simbologia
“Representa uma corrente desfavorável à expansão para o Oriente,
mais tolerante em relação à guerra no Norte de África. Traduz, ainda,
o medo do desconhecido e a hesitação perante a novidade.
As falas das mães e das esposas representam a reação(sic)
emocional àquela aventura, o discurso do velho exprime
uma posição racional, fruto de bom senso da experiência (“tais
palavras tirou do experto peito”). É a expressão rigorosa do
conservadorismo. Como o Velho do Restelo, pensavam muitos
naqueles tempos, assim como muitos pensam hoje em relação a
assuntos semelhantes, como a conquista espacial ou
a manipulação genética, por exemplo. Quando representa a voz do
bom senso e da fria razão assume a dimensão de personagem
alegórica – personagem que defende um ideal/princípio.
O seu discurso denuncia a suposta irresponsabilidade dos
marinheiros que se deixavam levar por promessas fantasiosas,
pela vitória, para uma aventura com consequências trágicas. Poderse-
á referir que todo o discurso desta figura se contrapõe á
ambição explicitada ao longo da viagem realizada por Vasco da
Gama. É o negar do sonho, da ambição, da capacidade de iniciativa
(...).”
3 PEREIRA, Joana. Nota positiva: O velho do restelo. Disponível em:
<http://www.notapositiva.com/pt/trbestbs/portugues/12_velho_do_restelo.htm>. Acesso em: 25 out. 2011.
6O Velho do Restelo representa a voz do bom senso frente ao esforço do
descobrimento; é a voz da prudência em meio à euforia pela conquista do
desconhecido; á a comparação da audácia do homem ao ato do pecado original
cometido por Adão, que resultou na perda do Paraíso. É a crítica à condição
humana de possuir inatamente o desejo inexorável de se lançar a aventuras em
nome do progresso, mesmo que o preço a ser pago seja lágrimas e sangue.
Com isso, podemos afirmar que o anticlímax que Camões cria em seu
Canto IV apenas reforça a sua genialidade e justifica ser Os Lusíadas uma obra
imortal.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 23. ed. São Paulo: Cultrix, 1987. 387
p.
_______, Massaud. A literatura portuguesa através de textos. 28. ed. São Paulo:
Cultrix, 2002. 686 p.
_______, Massaud (Org.). A literatura portuguesa em perspectiva. São Paulo:
Atlas, 1993. 282 p. 2 vol.
PEREIRA, Joana. Nota positiva: O velho do restelo. Disponível em:
<http://www.notapositiva.com/pt/trbestbs/portugues/12_velho_do_restelo.htm>.
Acesso em: 25 out. 2011.
SARAIVA, António José; LOPES, Óscar. História da Literatura Portuguesa: ideário
de os Lusíadas. 17. ed. Porto: Por Editora, 2001. 1213 p.
VILARINHO, Sabrina. Brasil Escola: Classicismo. Disponível em:
<http://www.brasilescola.com/literatura/classicismo.htm>. Acesso em: 27 out. 2011.